Dormir bem é essencial em qualquer fase da vida, mas durante a infância o sono assume um papel ainda mais importante: ele é fundamental para o desenvolvimento do cérebro. Enquanto a criança dorme, o organismo não apenas descansa, mas realiza uma série de processos biológicos e neurológicos que fortalecem a memória, consolidam aprendizados, regulam as emoções e favorecem o crescimento saudável.
Infelizmente, o sono infantil tem sido cada vez mais prejudicado pelo ritmo acelerado da rotina familiar, pelo uso excessivo de telas e pela falta de regularidade nos horários. Entender por que o sono é tão importante e como preservá-lo é essencial para garantir o pleno desenvolvimento da criança.
O sono e o cérebro em crescimento
O cérebro infantil está em constante transformação. Nos primeiros anos de vida, forma milhões de conexões entre os neurônios, chamadas sinapses, responsáveis por todas as funções cognitivas e motoras. Esse processo é altamente dinâmico e depende de descanso adequado para se consolidar.
Durante o sono, o cérebro “organiza” as experiências do dia: reforça as conexões que foram utilizadas, descarta informações irrelevantes e transfere aprendizados da memória de curto prazo para a de longo prazo. É por isso que crianças que dormem bem aprendem melhor, têm mais atenção e apresentam melhor desempenho escolar.
Além disso, o sono é um período de intensa liberação hormonal, especialmente do hormônio do crescimento (GH), essencial não apenas para o aumento da estatura, mas também para o desenvolvimento cerebral, muscular e imunológico.
As fases do sono e suas funções
O sono infantil é composto por diferentes fases, que se alternam ao longo da noite:
- Sono REM (movimentos rápidos dos olhos): é o momento dos sonhos e da intensa atividade cerebral. Essa fase está ligada à consolidação da memória, à criatividade e ao equilíbrio emocional.
- Sono não REM: dividido em estágios leves e profundos, é quando o corpo relaxa, o metabolismo diminui e ocorre a restauração física e o crescimento.
Ambas as fases são fundamentais e se complementam. Quando a criança dorme pouco ou tem o sono fragmentado, esses ciclos são interrompidos, prejudicando a qualidade do descanso e, consequentemente, o funcionamento do cérebro.
Quantas horas de sono as crianças precisam?
A necessidade de sono varia conforme a idade, mas de forma geral:
- Bebês (0 a 1 ano): entre 14 e 17 horas por dia (incluindo cochilos);
- Crianças pequenas (1 a 3 anos): de 12 a 14 horas;
- Pré-escolares (3 a 5 anos): de 10 a 13 horas;
- Crianças em idade escolar (6 a 12 anos): de 9 a 12 horas;
- Adolescentes: de 8 a 10 horas.
Dormir menos do que o necessário pode afetar diretamente o comportamento, a atenção, o humor e até o crescimento físico.
Consequências da privação de sono
A falta de sono adequado não se manifesta apenas em cansaço. Em crianças, ela costuma aparecer de forma diferente da dos adultos: ao invés de sonolência, é comum observar agitação, irritabilidade, impulsividade e dificuldades de concentração.
Alguns possíveis efeitos da privação de sono incluem:
- Déficit de atenção e pior desempenho escolar;
- Irritabilidade e alterações de humor;
- Maior risco de ansiedade e depressão;
- Dificuldades de memória e aprendizado;
- Comprometimento da imunidade;
- Alterações metabólicas e hormonais (incluindo risco aumentado de obesidade).
Esses impactos mostram que o sono não é apenas uma necessidade fisiológica, mas um componente essencial do desenvolvimento cognitivo e emocional.
O sono e o comportamento
O sono tem um papel direto na regulação emocional e comportamental. Durante o descanso noturno, o cérebro processa as experiências do dia, reorganiza as emoções e restaura o equilíbrio químico entre neurotransmissores como serotonina, dopamina e cortisol.
Quando a criança dorme pouco, esse equilíbrio é comprometido, o que pode gerar irritabilidade, impulsividade e dificuldade de lidar com frustrações. Não por acaso, muitas crianças diagnosticadas com TDAH, TOD ou ansiedade apresentam também problemas crônicos de sono e, em alguns casos, o tratamento do sono melhora significativamente o comportamento.
Fatores que prejudicam o sono infantil
Diversos hábitos do dia a dia podem interferir na qualidade do sono das crianças. Os principais são:
- Uso excessivo de telas: a luz azul emitida por celulares, tablets e televisores inibe a produção de melatonina, o hormônio que regula o sono.
- Falta de rotina: horários irregulares dificultam o ajuste do relógio biológico.
- Excesso de estímulos à noite: brincadeiras agitadas, barulho e luz intensa atrapalham o relaxamento.
- Ambiente inadequado: quartos muito iluminados, quentes ou barulhentos prejudicam o adormecer.
- Ansiedade e estresse: preocupações e mudanças na rotina (como início das aulas ou chegada de um irmão) também podem causar insônia infantil.
Como promover um sono saudável
Criar bons hábitos de sono desde cedo é uma das melhores formas de apoiar o desenvolvimento cerebral da criança. Veja algumas orientações práticas:
- Estabeleça uma rotina previsível: o cérebro da criança se organiza com a repetição. Tente manter horários fixos para dormir e acordar, mesmo nos fins de semana.
- Crie um ritual do sono: banho morno, leitura tranquila ou música suave sinalizam que é hora de descansar.
- Evite telas pelo menos 1 hora antes de dormir: substitua por atividades calmas, como desenhar ou ouvir histórias.
- Garanta um ambiente adequado: quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável favorece o sono profundo.
- Observe sinais de cansaço: bocejos, olhar distante e irritabilidade indicam que a criança precisa dormir. Evite “forçar” a ficar acordada.
- Cuidado com alimentos e bebidas estimulantes: evite refrigerantes, chocolates e cafeína à noite.
- Valorize o sono diurno nas crianças pequenas: cochilos são importantes para o processamento de informações e para o humor.
Essas medidas simples, quando aplicadas com constância, ajudam a consolidar o hábito do sono e melhoram o bem-estar físico e mental da criança.
Quando procurar ajuda profissional?
Se a criança apresenta dificuldade crônica para adormecer, despertares frequentes, roncos, sonolência diurna excessiva ou alterações comportamentais relacionadas ao sono, é importante procurar avaliação médica.
O neuropediatra pode investigar causas neurológicas ou comportamentais, identificar distúrbios do sono (como apneia, terror noturno ou síndrome das pernas inquietas) e orientar estratégias específicas de tratamento.
Em alguns casos, pode ser necessária uma avaliação polissonográfica, exame que analisa a qualidade do sono e as fases cerebrais envolvidas.
Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?
A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.
Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!
Dra. Cláudia Pechini
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