Algumas pessoas autistas passam boa parte da vida tentando esconder ou compensar características relacionadas ao autismo para conseguir se adaptar às expectativas sociais. Esse processo é conhecido como mascaramento, ou masking, e pode fazer com que os sinais do Transtorno do Espectro Autista (TEA) sejam menos perceptíveis para familiares, professores e até profissionais de saúde.
O mascaramento não significa que a pessoa deixou de apresentar características do autismo. Na maioria das vezes, significa que ela aprendeu estratégias para disfarçar determinadas dificuldades, imitar comportamentos sociais ou controlar respostas naturais para se adequar ao ambiente.
Esse processo pode acontecer de maneira consciente ou automática e costuma exigir bastante esforço. Por isso, compreender o mascaramento é importante tanto para reconhecer apresentações mais sutis do autismo quanto para entender o impacto que essa adaptação pode causar no bem-estar da criança ou do adolescente.
O que significa mascarar características do autismo?
O mascaramento acontece quando a pessoa tenta esconder, controlar ou compensar características que poderiam chamar atenção em situações sociais.
Uma criança pode, por exemplo, observar cuidadosamente como os colegas conversam e tentar reproduzir suas expressões, gestos ou formas de interação. Pode decorar frases para iniciar uma conversa, ensaiar mentalmente o que pretende dizer ou prestar muita atenção às regras sociais que outras pessoas parecem seguir naturalmente.
Também pode tentar esconder comportamentos que ajudam na autorregulação, como movimentos repetitivos, falar sobre determinado assunto de maneira intensa ou demonstrar desconforto diante de mudanças.
Isso não significa que a criança esteja “fingindo” ser outra pessoa de maneira intencional. Muitas vezes, ela simplesmente percebe que determinados comportamentos são mais aceitos socialmente e aprende a adaptá-los.
Por que algumas crianças mascaram?
O desejo de se encaixar pode ser um dos principais fatores. Desde cedo, as crianças percebem quais comportamentos são considerados esperados pelos adultos e pelos colegas.
Uma criança que percebe que suas características são vistas como “estranhas”, por exemplo, pode começar a observar os outros e modificar seu comportamento para evitar comentários, rejeição ou situações constrangedoras.
Em alguns casos, o mascaramento também pode surgir depois de experiências negativas. A criança pode ter sido corrigida repetidamente por determinados comportamentos ou perceber que é tratada de maneira diferente quando demonstra suas dificuldades.
Com o tempo, ela pode desenvolver estratégias para tentar evitar essas situações.
Como o mascaramento pode aparecer no dia a dia?
O mascaramento pode assumir diferentes formas e nem sempre é fácil identificá-lo.
Durante uma conversa, a criança pode olhar para o rosto da outra pessoa porque aprendeu que isso é esperado, mesmo que o contato visual seja desconfortável. Pode também imitar expressões faciais, gestos ou maneiras de falar observadas em outras pessoas.
Na escola, pode parecer muito adaptada socialmente, conversar com colegas e participar das atividades, mas precisar de um esforço enorme para fazer isso. Em alguns casos, ela passa grande parte do dia controlando comportamentos e, ao chegar em casa, demonstra muito mais irritação, cansaço ou necessidade de ficar sozinha.
Outra possibilidade é esconder interesses muito intensos ou evitar falar sobre assuntos que despertam grande entusiasmo por receio de parecer diferente.
Esses comportamentos, isoladamente, não significam autismo. O mascaramento precisa ser compreendido dentro de um conjunto mais amplo de características do desenvolvimento.
Por que os sinais podem ser mais difíceis de perceber?
Uma das consequências do mascaramento é que a criança pode parecer estar se adaptando muito bem em determinados ambientes.
Na escola, por exemplo, professores podem observar uma criança quieta, educada e participativa, enquanto os pais relatam crises frequentes, exaustão ou dificuldade para lidar com mudanças em casa.
Isso não significa necessariamente que alguém esteja errado. Ambientes diferentes exigem níveis diferentes de adaptação. Uma criança pode conseguir se organizar durante algumas horas na escola e ter dificuldades para continuar controlando seu comportamento depois de chegar em casa.
Por isso, ouvir diferentes pessoas que convivem com a criança é importante durante uma avaliação.
Meninas autistas podem mascarar mais?
O mascaramento pode acontecer em qualquer pessoa autista, mas ele é frequentemente discutido quando se fala sobre meninas e mulheres autistas.
Algumas meninas podem desenvolver estratégias sociais bastante sofisticadas e observar cuidadosamente o comportamento de outras crianças para reproduzi-lo. Isso pode fazer com que suas dificuldades sejam menos evidentes.
Em vez de apresentar comportamentos que chamam imediatamente a atenção, podem tentar se adaptar, permanecer em silêncio ou se esforçar para acompanhar as interações sociais.
Isso não significa que todas as meninas autistas apresentem mascaramento ou que o autismo se manifeste da mesma maneira em meninos e meninas. O espectro é bastante diverso, e cada pessoa apresenta uma combinação própria de características.
Mascaramento pode causar cansaço emocional?
Manter constantemente estratégias para controlar o próprio comportamento pode ser desgastante. A criança pode precisar prestar atenção o tempo todo em como falar, onde olhar, como reagir e o que fazer em determinadas situações sociais.
Esse esforço pode contribuir para cansaço, irritabilidade, ansiedade e necessidade de isolamento depois de períodos de intensa interação.
Em alguns casos, a criança pode passar a apresentar crises ou maior desregulação justamente em ambientes onde se sente segura, como em casa. Isso pode causar confusão nos adultos, que observam uma criança aparentemente tranquila na escola e outra completamente diferente depois.
É importante entender que essa diferença de comportamento entre ambientes pode ter várias explicações. O mascaramento é apenas uma possibilidade que pode ser considerada durante uma avaliação.
O mascaramento pode atrasar o diagnóstico?
Pode. Quando as estratégias utilizadas pela criança escondem algumas características do autismo, familiares e profissionais podem interpretar suas dificuldades de outras maneiras.
Uma criança pode ser considerada apenas tímida, muito quieta, ansiosa, perfeccionista ou excessivamente comportada. Em alguns casos, suas dificuldades podem ser atribuídas exclusivamente à ansiedade ou a problemas de comportamento.
Por isso, quando existe uma preocupação persistente em relação à comunicação, interação social, flexibilidade, interesses ou comportamento, é importante observar não apenas aquilo que a criança demonstra externamente, mas também quanto esforço parece fazer para se adaptar.
Uma avaliação adequada deve considerar a história do desenvolvimento desde os primeiros anos de vida, e não apenas o comportamento observado durante uma consulta.
Como é feita a avaliação?
O diagnóstico do autismo é clínico e envolve uma análise ampla do desenvolvimento e do comportamento. O profissional procura compreender como a criança se comunica, interage, brinca, lida com mudanças e manifesta seus interesses.
Relatos dos pais e de outros cuidadores são fundamentais. Informações da escola também podem contribuir para entender como a criança funciona em diferentes ambientes.
Quando existe suspeita de mascaramento, é especialmente importante perguntar não apenas se a criança consegue realizar determinada atividade, mas como ela consegue realizá-la. Conseguir participar de uma conversa, por exemplo, não significa necessariamente que a interação aconteça sem esforço ou dificuldade.
O objetivo não é identificar comportamentos isolados, mas compreender o funcionamento da criança como um todo.
Como ajudar uma criança que mascara suas dificuldades?
O primeiro passo é criar ambientes nos quais a criança não precise sentir que deve esconder constantemente suas características para ser aceita.
Isso significa evitar críticas ou punições por comportamentos relacionados à autorregulação, respeitar momentos de descanso e compreender que determinadas situações sociais podem exigir mais energia.
Também é importante ensinar habilidades sociais quando necessário, mas sem transformar a criança em alguém que precisa imitar constantemente os outros para ser aceita. O objetivo deve ser ajudá-la a se comunicar e participar das situações de maneira confortável e funcional.
Quando existem ansiedade, sofrimento emocional, dificuldades sensoriais ou outros desafios associados, esses aspectos também precisam ser considerados no acompanhamento.
Nem todo comportamento diferente precisa ser escondido
O mascaramento mostra como algumas pessoas autistas podem aprender a esconder características para se adaptar às expectativas do ambiente. Embora essas estratégias possam ajudar em determinadas situações, o esforço constante para parecer “igual aos outros” pode ser desgastante.
Por isso, reconhecer o mascaramento não significa incentivar a criança a abandonar todas as estratégias sociais que desenvolveu. Significa compreender quando ela está se esforçando além do que consegue sustentar e oferecer um ambiente em que não precise esconder suas necessidades o tempo inteiro.
Mais do que perguntar se uma criança parece socialmente adaptada, é importante observar como ela se sente, quanto esforço está fazendo e se consegue ser ela mesma com segurança.
Por trás do comportamento, existe uma criança tentando se adaptar.
O mascaramento pode fazer com que algumas características do autismo fiquem menos visíveis, mas não significa que as dificuldades deixem de existir. Uma criança pode aprender a sorrir, conversar, olhar nos olhos e acompanhar os colegas e, ainda assim, sentir grande esforço para realizar essas interações.
Por isso, ouvir a criança, conversar com a família e observar diferentes contextos são partes importantes de uma avaliação cuidadosa.
Quando existe suspeita de autismo, buscar uma avaliação especializada não significa colocar um rótulo, mas tentar compreender melhor a forma como aquela criança percebe, comunica-se e se relaciona com o mundo.
Quanto mais cedo suas necessidades forem reconhecidas, maior a possibilidade de oferecer apoio sem exigir que ela passe a vida inteira tentando esconder quem é.
Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?
A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes, a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.
Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!
Dra. Cláudia Pechini
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