O cérebro da criança é um universo em constante construção. Desde os primeiros dias de vida, bilhões de conexões são formadas a cada nova experiência: um som, um toque, um olhar, uma brincadeira. É por meio dessas interações que a criança aprende a compreender o mundo, desenvolver habilidades e construir sua identidade.
Mas se o cérebro infantil é tão receptivo e sensível, surge uma pergunta importante: como estimular esse potencial de forma saudável, sem sobrecarregar a criança?
Em um mundo repleto de estímulos — telas, atividades, compromissos e pressões —, é essencial entender que estimular não significa exigir, e que o desenvolvimento saudável depende de equilíbrio, afeto e experiências reais.
O cérebro infantil e a importância das experiências
Nos primeiros anos de vida, o cérebro passa por um processo chamado neuroplasticidade, a capacidade de criar e fortalecer conexões entre neurônios conforme as experiências vividas.
Cada interação com o ambiente, uma conversa, uma música, um jogo, o contato com a natureza, ajuda a moldar essas conexões. Por isso, a estimulação adequada é tão importante: ela influencia diretamente o aprendizado, o comportamento, a linguagem e até o equilíbrio emocional da criança.
Mas é preciso ter cuidado. A estimulação deve respeitar o ritmo e o estágio de desenvolvimento de cada criança. O excesso de informações, atividades e cobranças pode gerar ansiedade e até prejudicar o aprendizado.
O segredo está em oferecer experiências significativas, diversificadas e afetuosas, que despertem a curiosidade e o prazer de aprender.
1. Brincar: o melhor exercício para o cérebro.
Brincar é a forma mais natural e poderosa de estimulação cerebral. Durante as brincadeiras, a criança explora o corpo, desenvolve a imaginação, aprende regras sociais e exercita funções cognitivas como atenção, memória e planejamento.
Brincadeiras livres (como correr, pular, montar blocos ou brincar de faz de conta) estimulam criatividade, coordenação e linguagem.
Jogos de regras simples, como dominó, memória e esconde-esconde, ajudam a desenvolver raciocínio lógico e autocontrole.
Brincadeiras ao ar livre fortalecem a percepção corporal, o equilíbrio e a atenção plena.
Além de divertir, o brincar é um espaço de aprendizado emocional. A criança aprende a lidar com frustrações, esperar sua vez e respeitar limites, aspectos essenciais para o desenvolvimento socioemocional.
2. Conversar, ler e cantar: o poder da linguagem e da afetividade.
A linguagem é uma das funções mais complexas e importantes do cérebro. E ela se desenvolve na interação diária.
Conversar com a criança, narrar o que está acontecendo, fazer perguntas e ouvir suas respostas com atenção são atitudes simples que estimulam o raciocínio, a memória e o vocabulário.
A leitura compartilhada é outro estímulo riquíssimo. Além de fortalecer vínculos afetivos, os livros ampliam o repertório da criança, desenvolvem empatia e despertam o interesse pelo conhecimento.
E não podemos esquecer das músicas: cantar e ouvir canções infantis favorece a memória auditiva, o ritmo, a coordenação motora e até a estruturação da fala.
O segredo está na presença e na troca, não se trata apenas de falar, mas de estar emocionalmente disponível.
3. Rotina, sono e alimentação: os pilares do desenvolvimento cerebral.
Um cérebro saudável precisa de descanso e equilíbrio para processar tudo o que aprende.
Sono adequado é fundamental para consolidar memórias e regular o humor. Crianças que dormem pouco podem apresentar irritabilidade, falta de atenção e dificuldades de aprendizado.
Alimentação equilibrada fornece os nutrientes necessários para o funcionamento cerebral. Alimentos ricos em ômega-3, ferro, vitaminas do complexo B e antioxidantes são aliados do desenvolvimento cognitivo.
Rotina estruturada traz segurança. Quando a criança sabe o que esperar, seu cérebro pode dedicar mais energia à aprendizagem e menos à ansiedade.
Esses cuidados simples criam a base para um cérebro ativo e equilibrado.
4. Estimular não é acelerar
Em tempos de excesso de informações, muitos pais sentem a pressão de “estimular ao máximo” os filhos desde cedo, matriculando-os em várias atividades, comprando brinquedos educativos ou introduzindo conteúdos escolares precocemente.
Mas é importante lembrar: o cérebro precisa de tempo para amadurecer. Cada fase do desenvolvimento tem suas próprias conquistas e não deve ser apressada.
Aprender a andar, falar, desenhar e ler são processos naturais que se constroem com repetição, brincadeiras e experiências reais.
O excesso de estímulos pode gerar sobrecarga sensorial, dificultando a concentração e prejudicando o prazer de aprender. Estimular de forma saudável é respeitar o ritmo da criança, nem mais, nem menos.
5. Reduzir o tempo de telas
O uso excessivo de telas — celulares, tablets e televisores — tem impacto direto no desenvolvimento cerebral. Estudos mostram que a exposição precoce e prolongada está associada a atrasos na linguagem, dificuldades de atenção, irritabilidade e prejuízo na qualidade do sono.
A recomendação das sociedades de pediatria é clara:
- Antes dos 2 anos: evitar completamente o uso de telas;
- Dos 2 aos 5 anos: limitar a, no máximo, 1 hora por dia, sempre com supervisão;
- Acima dos 6 anos: manter o equilíbrio e priorizar atividades off-line.
O ideal é substituir as telas por interações reais, leitura, brincadeiras e contato com a natureza. Essas experiências são muito mais enriquecedoras para o cérebro infantil.
6. Contato com a natureza e movimento corporal
O cérebro não aprende apenas sentado. Ele aprende com o corpo todo. Correr, subir, pular, rolar e explorar o ambiente estimula o equilíbrio, a coordenação e a percepção espacial, funções que também contribuem para o aprendizado escolar.
Além disso, o contato com a natureza tem efeitos comprovados na redução do estresse, na melhora da concentração e no bem-estar emocional. Uma caminhada ao ar livre, uma tarde no parque ou simplesmente brincar na terra são experiências que alimentam o cérebro e o coração.
7. Vínculo emocional: o melhor estímulo de todos.
Nenhuma técnica de estimulação é mais poderosa do que o vínculo afetivo. O cérebro da criança se desenvolve melhor em um ambiente onde se sente segura, amada e compreendida.
Quando há afeto, o cérebro libera substâncias como a ocitocina e a dopamina, que fortalecem a aprendizagem e reduzem o estresse. Em contrapartida, ambientes de tensão e gritos constantes aumentam o cortisol, um hormônio que pode prejudicar o desenvolvimento cerebral a longo prazo.
Portanto, mais importante do que qualquer brinquedo educativo é a presença atenta e carinhosa dos pais. O olhar, o toque e o tempo compartilhado são estímulos que constroem conexões profundas, dentro e fora do cérebro.
Em conclusão…
Estimular o cérebro da criança de forma saudável não é sobre fazer mais, e sim sobre fazer com qualidade e presença.
Brincar, conversar, ler, cantar, explorar o mundo, respeitar o tempo de descanso e oferecer um ambiente acolhedor são atitudes simples, mas com impacto enorme no desenvolvimento neurológico e emocional.
O cérebro infantil é moldado, acima de tudo, por amor e experiências positivas. Cada sorriso, cada brincadeira e cada descoberta contribuem para formar não apenas uma mente ativa, mas também uma criança confiante, curiosa e feliz.
Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?
A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.
Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!
Dra. Cláudia Pechini
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