Receber a notícia de que uma criança teve uma convulsão pode gerar muitas dúvidas e preocupações na família. Uma das primeiras perguntas costuma ser: “Meu filho tem epilepsia?”.
Embora uma crise convulsiva possa ser um dos sinais da doença, uma única crise não significa necessariamente que a criança tenha epilepsia. O diagnóstico depende de uma avaliação cuidadosa, que considera as características dos episódios, o seu histórico, o exame neurológico e, quando necessário, exames complementares.
A epilepsia é uma condição neurológica caracterizada pela predisposição persistente do cérebro para apresentar crises epilépticas. Como existem diferentes tipos da condição e de crises, o diagnóstico pode variar bastante de uma criança para outra. Por isso, mais do que realizar um exame específico, é necessário reunir diferentes informações para compreender o que está acontecendo.
O que caracteriza a epilepsia?
As crises epilépticas acontecem quando ocorre uma atividade elétrica anormal e excessiva em determinadas redes do cérebro. Dependendo das áreas envolvidas, a criança pode apresentar manifestações muito diferentes.
Algumas crises provocam movimentos involuntários e perda de consciência, enquanto outras podem causar apenas um breve período de desconexão, alterações de comportamento, sensações incomuns ou movimentos repetitivos.
É importante lembrar que nem toda alteração de consciência, desmaio ou movimento involuntário representa uma crise epiléptica. Existem situações que podem parecer uma convulsão, mas possuem outras causas. Diferenciar esses episódios é uma das etapas mais importantes da avaliação.
Uma primeira crise já significa epilepsia?
Não necessariamente. Uma criança pode apresentar uma crise provocada por uma situação específica, como febre, alterações metabólicas, infecções ou outras condições, sem que isso signifique que exista uma predisposição permanente para novas crises.
De maneira geral, o diagnóstico de epilepsia considera a ocorrência de crises epilépticas não provocadas de forma recorrente ou determinadas características clínicas e exames que indiquem um risco elevado de novas crises.
Por isso, depois de um primeiro episódio, o neuropediatra precisa analisar cuidadosamente o contexto em que ele aconteceu antes de concluir o diagnóstico.
O relato dos pais é uma parte fundamental da avaliação
Muitas vezes, a crise já terminou quando a criança chega ao consultório. Por isso, o relato de quem presenciou o episódio pode fornecer informações essenciais para o diagnóstico.
O médico pode perguntar como a crise começou, se a criança estava consciente, se houve queda, rigidez, movimentos repetitivos, alteração da respiração ou da coloração da pele e quanto tempo durou.
Também é importante saber como foi a recuperação. Algumas crianças ficam sonolentas ou confusas após uma crise, enquanto outras retomam rapidamente o comportamento habitual.
Se for seguro gravar um episódio, o vídeo pode ser bastante útil para o profissional observar os movimentos e características da manifestação. No entanto, a prioridade durante uma crise deve ser sempre proteger a criança, e não tentar filmá-la.
O eletroencefalograma confirma a epilepsia?
O eletroencefalograma, conhecido como EEG, é um dos exames mais importantes na investigação da epilepsia infantil. Ele registra a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo.
O exame pode identificar padrões de atividade elétrica que aumentam a suspeita de determinados tipos de epilepsia e também pode ajudar a classificar a síndrome epiléptica apresentada pela criança.
Entretanto, é importante entender que um EEG normal não exclui completamente a possibilidade de epilepsia. Algumas crianças com epilepsia podem apresentar um eletroencefalograma normal entre as crises.
Da mesma forma, alterações no EEG precisam ser interpretadas junto com os sintomas e a história clínica. O diagnóstico não deve ser baseado exclusivamente no resultado do exame.
A criança precisa fazer ressonância do cérebro?
Nem toda criança com suspeita de epilepsia necessariamente precisará realizar uma ressonância magnética. A indicação depende do tipo de crise, da idade da criança, dos resultados da avaliação clínica e de outros fatores.
Quando indicada, a ressonância permite observar a estrutura do cérebro e investigar possíveis alterações que possam estar relacionadas às crises. Entre elas estão algumas malformações do desenvolvimento cerebral, cicatrizes ou outras alterações estruturais.
A decisão sobre realizar o exame deve ser individualizada. Em determinados tipos de epilepsia, especialmente quando existe suspeita de uma alteração estrutural, a investigação por imagem pode ser especialmente importante.
Exames de sangue também podem fazer parte da investigação
Dependendo da situação, o médico pode solicitar exames laboratoriais. Eles podem ajudar a identificar alterações metabólicas, infecções ou outras condições capazes de provocar crises semelhantes às epilépticas.
Em uma criança que apresentou uma crise em um contexto específico, por exemplo, investigar alterações que possam ter desencadeado o episódio pode ser importante para compreender se foi uma crise provocada ou se existe suspeita de epilepsia.
Assim como acontece com os exames de imagem e o eletroencefalograma, os resultados precisam ser interpretados dentro do contexto clínico.
Existem diferentes tipos de epilepsia infantil
A epilepsia não é uma única doença. Existem diferentes tipos de crises e síndromes epilépticas, algumas mais comuns na infância e outras que podem surgir em determinadas fases do desenvolvimento.
Algumas epilepsias apresentam crises predominantemente durante o sono, enquanto outras podem provocar episódios breves durante o dia. Existem ainda condições em que as crises são acompanhadas por alterações no desenvolvimento, aprendizagem ou comportamento.
Identificar corretamente o tipo de epilepsia é importante porque isso influencia a escolha do tratamento e permite estabelecer um acompanhamento mais adequado.
Por isso, o diagnóstico não termina simplesmente quando se confirma a presença de crises epilépticas. É necessário compreender qual é o tipo de epilepsia e como ela está se manifestando naquela criança.
O desenvolvimento também faz parte da investigação
Durante a avaliação neuropediátrica, o profissional não observa apenas as crises. O desenvolvimento global da criança também é analisado.
Aspectos relacionados à linguagem, aprendizagem, comportamento, coordenação motora e interação social podem fornecer informações importantes. Algumas epilepsias estão associadas a alterações específicas do desenvolvimento, enquanto em outros casos a criança apresenta desenvolvimento completamente adequado.
Também é importante observar se houve alguma mudança no comportamento ou perda de habilidades depois do início das crises. Essas informações podem ajudar a direcionar a investigação e o acompanhamento.
Quando a criança precisa de tratamento?
A necessidade de iniciar um medicamento antiepiléptico depende de diversos fatores. O tipo e a frequência das crises, o risco de recorrência, os resultados dos exames e o diagnóstico específico são considerados nessa decisão.
Nem toda criança que apresenta uma primeira crise necessariamente começa um tratamento contínuo. Em algumas situações, o médico pode optar por acompanhar a evolução antes de iniciar uma medicação.
Quando o tratamento é indicado, a escolha do medicamento é individualizada, levando em consideração o tipo de crise, a idade da criança, possíveis efeitos adversos e outras características do quadro.
O objetivo é controlar as crises com a melhor relação possível entre eficácia, segurança e qualidade de vida.
O diagnóstico precoce faz diferença
Identificar a epilepsia infantil de maneira adequada permite não apenas controlar as crises, mas também acompanhar o desenvolvimento da criança e reduzir possíveis impactos sobre sua rotina.
Quando as crises são controladas, muitas crianças conseguem frequentar a escola, brincar, praticar atividades e manter uma vida bastante próxima do habitual. O acompanhamento também permite ajustar o tratamento conforme a criança cresce e suas necessidades mudam.
Além disso, compreender o diagnóstico ajuda a família e a escola a saber como agir diante de uma eventual nova crise, reduzindo o medo e evitando condutas inadequadas.
Mais do que um exame, um olhar para a criança.
O diagnóstico da epilepsia infantil não depende de um único exame. Ele é construído a partir da combinação entre história clínica, características das crises, exame neurológico, desenvolvimento da criança e, quando necessário, resultados de exames como eletroencefalograma, ressonância magnética e avaliações laboratoriais.
Por isso, diante de uma suspeita de epilepsia, o acompanhamento com um neuropediatra é fundamental. Uma investigação cuidadosa permite diferenciar crises epilépticas de outros eventos, identificar o tipo de epilepsia quando ela está presente e definir a melhor estratégia para cada criança.
Mais do que dar um nome ao que está acontecendo, o diagnóstico é uma forma de compreender o cérebro daquela criança, oferecer o tratamento adequado e acompanhar seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com informação, acompanhamento especializado e suporte da família, é possível enfrentar a epilepsia com muito mais segurança e proporcionar à criança oportunidades para crescer, aprender e viver plenamente.
Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?
A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes, a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.
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Dra. Cláudia Pechini
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