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Meu filho é muito desastrado: quando investigar?

desastrado

Toda criança pode tropeçar, derrubar objetos, esbarrar nos móveis ou ter dificuldade para realizar determinadas atividades motoras. Afinal, correr, pular, subir, descer, recortar, desenhar e aprender a controlar os movimentos são habilidades que se desenvolvem gradualmente ao longo da infância. Por isso, alguns episódios de ter dificuldade motora fazem parte do processo natural de desenvolvimento.

Mas e quando a criança parece estar sempre tropeçando, cai com frequência, derruba objetos constantemente ou apresenta dificuldade para realizar tarefas que outras crianças da mesma idade fazem com facilidade? Nesses casos, vale a pena observar com mais atenção.

Ser “desastrado” não significa necessariamente que exista um problema neurológico. Porém, quando as dificuldades de coordenação são persistentes, interferem na autonomia ou começam a afetar a autoestima e a participação da criança nas atividades, elas podem estar relacionadas a uma alteração do desenvolvimento motor, como o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), também conhecido como dispraxia.

Toda criança desastrada precisa de avaliação?

Não. Crianças apresentam ritmos diferentes de desenvolvimento e algumas naturalmente demonstram maior facilidade para atividades motoras do que outras. Uma criança pode não ter tanta habilidade com esportes, por exemplo, mas apresentar desenvolvimento motor adequado para sua idade.

Também é esperado que crianças menores ainda estejam aprendendo a controlar movimentos mais complexos. Tropeçar ocasionalmente, derrubar um copo ou ter dificuldade inicial para amarrar os sapatos não é, por si só, motivo para preocupação.

O que merece atenção é a persistência e a intensidade dessas dificuldades. Quando essa dificuldade é muito frequente e aparece em diferentes situações do cotidiano, pode ser importante investigar se existe alguma dificuldade específica de coordenação.

Quais sinais podem indicar uma dificuldade de coordenação?

Uma criança com dificuldade motora pode apresentar problemas em tarefas que exigem coordenação entre diferentes partes do corpo. Ela pode tropeçar ou cair com frequência, esbarrar constantemente em objetos, ter dificuldade para correr, pular ou subir escadas e demonstrar insegurança em atividades que envolvem equilíbrio.

As dificuldades também podem aparecer em tarefas mais delicadas. Segurar corretamente um lápis, recortar com tesoura, desenhar, pintar dentro de espaços, usar talheres, abotoar roupas ou amarrar os cadarços podem exigir um esforço muito maior do que o esperado.

Em alguns casos, a criança evita atividades físicas ou esportes porque percebe que tem mais dificuldade do que os colegas. Isso pode fazer com que ela participe menos das brincadeiras e, com o tempo, desenvolva receio de tentar novas atividades.

Dificuldades motoras também podem aparecer na escola

As dificuldades de coordenação não ficam restritas às brincadeiras. Elas podem interferir diretamente nas atividades escolares.

Uma criança pode escrever mais devagar, apresentar letra difícil de compreender, cansar rapidamente durante tarefas de escrita ou ter dificuldade para copiar informações do quadro. Atividades que exigem recorte, colagem, desenho ou organização espacial também podem ser mais trabalhosas.

Isso não significa que toda criança com letra pouco legível ou dificuldade para escrever tenha um transtorno motor. É necessário observar o conjunto de sinais e o impacto que eles provocam na rotina escolar.

Quando a criança precisa de muito mais tempo e esforço para realizar tarefas motoras simples, uma avaliação pode ajudar a compreender a origem dessa dificuldade.

O que é o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação?

O Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na aquisição e execução de habilidades motoras.

A criança pode parecer “desajeitada”, apresentar movimentos menos coordenados ou precisar de mais tempo para aprender determinadas tarefas. Essas dificuldades não são explicadas simplesmente pela falta de oportunidade para praticar.

O TDC pode afetar tanto habilidades motoras grossas, como correr, pular e equilibrar-se, quanto habilidades motoras finas, como escrever, desenhar, usar talheres ou manipular pequenos objetos.

É importante destacar que a criança não apresenta essas dificuldades por falta de esforço. Muitas vezes, ela se esforça bastante e mesmo assim encontra obstáculos em atividades que parecem simples para outras crianças.

Desastrado ou apenas com pouca experiência?

Uma das questões mais importantes durante a avaliação é diferenciar uma dificuldade de coordenação de uma simples falta de experiência.

Se uma criança nunca teve contato com determinado esporte, por exemplo, é natural que tenha dificuldade para executar seus movimentos inicialmente. Com prática e orientação, espera-se que ela consiga aprender gradualmente.

Já quando a dificuldade aparece em diversas atividades motoras e permanece mesmo após oportunidades adequadas de aprendizagem, é importante observar com mais atenção.

A comparação com outras crianças da mesma faixa etária pode fornecer pistas, mas não deve ser utilizada de maneira rígida. O desenvolvimento precisa ser analisado individualmente, considerando a história e as características de cada criança.

Existem outras causas para ser desastrado?

Sim. Dificuldades motoras podem ter diferentes causas e, por isso, uma avaliação adequada é importante antes de chegar a qualquer conclusão.

Alterações de visão, problemas de equilíbrio, algumas condições neurológicas, dificuldades musculares ou alterações sensoriais podem interferir na coordenação. Questões relacionadas à atenção também podem fazer com que a criança pareça mais desajeitada, especialmente quando ela se movimenta sem prestar atenção ao ambiente.

Além disso, algumas crianças apresentam mais de uma condição do neurodesenvolvimento ao mesmo tempo. O Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação, por exemplo, pode coexistir com TDAH, transtornos de aprendizagem ou outras dificuldades.

Por esse motivo, olhar para o desenvolvimento de forma global é mais importante do que analisar apenas os tropeços ou quedas.

Quando procurar um neuropediatra?

Uma avaliação especializada pode ser indicada quando a criança apresenta quedas muito frequentes, dificuldade persistente para realizar atividades motoras esperadas para sua idade ou grande diferença entre suas habilidades motoras e as de outras crianças. 

Também merece atenção quando as dificuldades motoras interferem na autonomia, nas atividades escolares, na prática de esportes ou na participação em brincadeiras. Igualmente, esse olhar atento é necessário quando ocorrem mudanças repentinas. 

Se uma criança que anteriormente apresentava boa coordenação passa a cair frequentemente, demonstrar fraqueza, perder habilidades já adquiridas ou apresentar alterações importantes no equilíbrio, é importante procurar avaliação médica.

Nesses casos, o objetivo é investigar não apenas a coordenação, mas também possíveis alterações neurológicas ou outras condições de saúde.

Como é feita a avaliação?

A avaliação começa com uma conversa detalhada com os pais sobre o desenvolvimento da criança. O profissional procura entender quando as dificuldades começaram, em quais atividades aparecem e como interferem na rotina.

Durante a consulta, são observados aspectos como equilíbrio, coordenação, força, marcha, movimentos finos e habilidades motoras adequadas à idade. Informações da escola também podem ser importantes para compreender como a criança se comporta em diferentes ambientes.

Dependendo das características encontradas, pode ser recomendada uma avaliação multiprofissional. Fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais podem contribuir para identificar as dificuldades específicas e planejar estratégias de intervenção.

Como ajudar uma criança que apresenta dificuldades motoras?

O primeiro passo é evitar comparações e críticas. Dizer constantemente que a criança é “desastrada” pode fazer com que ela passe a acreditar que não é capaz de realizar determinadas atividades.

Em vez disso, é importante oferecer oportunidades para praticar habilidades motoras de maneira prazerosa e sem excesso de cobrança. Brincadeiras que envolvam movimento, atividades manuais, jogos de coordenação e esportes adaptados às preferências da criança podem contribuir para o desenvolvimento.

Quando existe uma dificuldade específica, a terapia ocupacional e a fisioterapia podem ajudar a desenvolver estratégias para melhorar a coordenação e aumentar a autonomia.

O apoio da escola também pode ser necessário, especialmente quando as dificuldades interferem na escrita ou em outras tarefas acadêmicas.

Quando o “desastrado” precisa de um olhar diferente?

Ser mais atrapalhado em algumas situações faz parte da infância e não precisa ser motivo de preocupação. O problema está quando o esse “desajeitamento” deixa de ser apenas uma característica e começa a limitar a participação da criança no cotidiano.

Quedas frequentes, dificuldade persistente para aprender habilidades motoras, problemas para realizar tarefas simples, sofrimento diante das atividades físicas ou impacto no desempenho escolar são sinais que merecem ser observados com atenção.

Mais do que perguntar se a criança é simplesmente “desastrada”, vale observar o que existe por trás dessas dificuldades. Com uma avaliação adequada, é possível compreender seu perfil motor, identificar possíveis alterações e oferecer o suporte necessário.

Quando a criança recebe incentivo em vez de críticas e oportunidades em vez de comparações, ela pode desenvolver suas habilidades com mais confiança. Afinal, cada criança tem seu próprio ritmo de aprendizagem, e reconhecer suas dificuldades não significa limitar seu potencial, mas criar condições para que ela possa descobrir tudo o que é capaz de fazer.

Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?

A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes, a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.

Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!

Dra. Cláudia Pechini

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