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TDAH em meninas: por que o diagnóstico pode demorar mais?

TDAH

Quando se fala em Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), muitas pessoas ainda imaginam uma criança inquieta, impulsiva, que não consegue permanecer sentada ou interrompe constantemente os adultos. Embora esses comportamentos possam fazer parte do transtorno, eles não representam todas as formas pelas quais o TDAH pode se manifestar.

Em meninas, especialmente, os sinais podem ser mais discretos e passar despercebidos durante anos. Em vez de apresentar uma hiperatividade muito evidente, algumas meninas demonstram principalmente desatenção, dificuldade de organização, esquecimentos e problemas para administrar tarefas. Como muitas conseguem compensar essas dificuldades por um período, o diagnóstico pode acontecer apenas quando as demandas escolares e sociais se tornam maiores.

Reconhecer essas manifestações é importante para evitar que dificuldades persistentes sejam interpretadas apenas como distração, desorganização, falta de esforço ou características da personalidade.

Por que o TDAH pode passar despercebido nas meninas?

Uma das principais razões está na forma como o transtorno pode se manifestar. O TDAH possui diferentes apresentações, e nem todas envolvem hiperatividade evidente.

Algumas meninas apresentam predominantemente sintomas de desatenção. Elas podem parecer distraídas, sonhadoras ou estar constantemente “no mundo da lua”. Podem esquecer materiais, perder prazos, cometer erros por falta de atenção e precisar de mais tempo para concluir tarefas.

Como esses comportamentos são menos disruptivos do que correr pela sala, interromper professores ou apresentar impulsividade intensa, podem receber menos atenção de adultos.

Além disso, muitas meninas desenvolvem estratégias para compensar suas dificuldades e conseguem manter um desempenho aparentemente adequado durante parte da infância.

Nem sempre a hiperatividade aparece como agitação

Quando existe hiperatividade em meninas, ela nem sempre se manifesta de maneira tão evidente quanto nos meninos. Em vez de correr ou levantar constantemente, a criança pode apresentar inquietação interna, falar bastante, mexer continuamente as mãos ou os pés, ter dificuldade para relaxar ou sentir necessidade constante de estar fazendo alguma coisa.

Também pode demonstrar grande dificuldade em permanecer concentrada em atividades consideradas pouco interessantes, mesmo quando consegue passar horas envolvida em assuntos de seu interesse.

Por isso, observar apenas a presença ou ausência de agitação física pode fazer com que alguns casos sejam subestimados.

A menina pode tirar boas notas e ainda ter TDAH

Um dos maiores equívocos é acreditar que uma criança com bom desempenho escolar não pode ter TDAH. Algumas meninas conseguem manter notas adequadas por meio de esforço intenso, dedicação excessiva ou apoio constante da família.

Em determinadas situações, elas podem passar horas estudando para alcançar resultados que outras crianças conseguem obter com menos esforço. Esse custo nem sempre é percebido pela escola ou pelos familiares.

À medida que as demandas acadêmicas aumentam, especialmente nos anos finais do ensino fundamental e durante o ensino médio, essas estratégias podem deixar de funcionar. É nesse momento que as dificuldades de organização, planejamento e gerenciamento do tempo podem se tornar muito mais evidentes.

Perfeccionismo pode esconder dificuldades

Algumas meninas com TDAH desenvolvem um comportamento extremamente perfeccionista como forma de compensar suas dificuldades. Elas podem revisar várias vezes uma tarefa, ter medo de esquecer algo ou gastar muito tempo organizando atividades.

Por fora, parecem extremamente responsáveis. Por dentro, entretanto, podem estar utilizando uma quantidade enorme de energia para manter tudo sob controle.

Esse esforço pode levar à exaustão, ansiedade e sensação constante de que não estão fazendo o suficiente. A criança pode acreditar que precisa se esforçar muito mais do que os colegas para conseguir acompanhar as mesmas atividades.

Esquecimentos e desorganização não são simplesmente “preguiça”

É comum que meninas com TDAH sejam chamadas de distraídas, esquecidas ou desorganizadas. Esquecer trabalhos, perder objetos, deixar tarefas pela metade ou precisar de vários lembretes para cumprir compromissos pode ser interpretado como falta de responsabilidade.

No entanto, essas dificuldades podem estar relacionadas às funções executivas, que envolvem habilidades como planejamento, organização, gerenciamento do tempo, controle da atenção e monitoramento das próprias ações.

A criança pode saber exatamente o que precisa fazer, querer cumprir a tarefa e, ainda assim, encontrar dificuldade para organizar os passos necessários para realizá-la.

O impacto emocional pode ser significativo

Quando as dificuldades do TDAH permanecem sem reconhecimento, a menina pode começar a desenvolver uma visão negativa sobre si mesma.

Ouvir repetidamente que é desatenta, desorganizada ou “capaz, mas não se esforça” pode afetar sua autoestima. Aos poucos, ela pode começar a acreditar que existe algo errado com sua forma de aprender ou funcionar.

Na adolescência, esse impacto pode se tornar ainda mais evidente. A comparação com colegas, o aumento das responsabilidades e as mudanças nas relações sociais podem intensificar sentimentos de inadequação.

Por isso, alterações emocionais como ansiedade, tristeza, baixa autoestima e sensação constante de incapacidade também merecem atenção.

TDAH e ansiedade podem aparecer juntos

Ansiedade e TDAH podem coexistir, e essa associação pode tornar o diagnóstico mais complexo. Uma menina que se preocupa excessivamente com provas, tarefas e compromissos pode estar tentando compensar dificuldades de organização e atenção.

Ao mesmo tempo, a ansiedade pode aumentar a dificuldade de concentração e tornar ainda mais difícil diferenciar o que está acontecendo. Por isso, a avaliação precisa considerar todos os sintomas e entender quando eles começaram, em quais contextos aparecem e como interferem na rotina.

O que acontece na adolescência?

A adolescência costuma trazer um aumento importante das demandas de organização e autonomia. A menina passa a precisar administrar diferentes professores, trabalhos, provas, compromissos e relações sociais.

Para quem apresenta TDAH, esse aumento de responsabilidades pode revelar dificuldades que anteriormente eram compensadas pelos pais ou pela estrutura da escola.

Além disso, questões relacionadas à autoestima, amizades e pertencimento social ganham maior importância. Se a adolescente sente que precisa se esforçar excessivamente para acompanhar os colegas, pode apresentar maior desgaste emocional.

Esse período, portanto, pode ser justamente o momento em que uma condição que passou despercebida durante a infância se torna mais evidente.

Como é feito o diagnóstico de TDAH em meninas?

O diagnóstico do TDAH é clínico e considera a história do desenvolvimento e o conjunto de sintomas apresentados pela criança. Não existe um exame de sangue ou de imagem capaz de confirmar o transtorno isoladamente.

Durante a avaliação, o profissional procura compreender como estão a atenção, a impulsividade, a organização, o controle emocional e as funções executivas, além de verificar o impacto dessas dificuldades na vida cotidiana.

Informações da família e da escola são muito importantes. Em alguns casos, avaliações complementares com psicólogos, neuropsicólogos ou outros profissionais ajudam a compreender melhor o perfil da criança.

É essencial também investigar outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes ou coexistir com o TDAH.

O tratamento pode ajudar a criança a desenvolver seu potencial

Quando o TDAH é identificado, o acompanhamento deve ser individualizado. Dependendo das necessidades da criança ou adolescente, podem ser utilizadas estratégias comportamentais, intervenções psicoterapêuticas, adaptações escolares e, quando indicadas, medicações.

O objetivo não é transformar a personalidade da criança nem eliminar suas características individuais. O tratamento busca reduzir os prejuízos causados pelos sintomas e ajudá-la a desenvolver estratégias para lidar melhor com suas dificuldades.

A orientação da família e da escola também é fundamental para criar um ambiente que favoreça a autonomia e o aprendizado.

Olhar além do comportamento

O TDAH em meninas pode passar despercebido justamente porque nem sempre causa comportamentos que chamam atenção imediatamente. Uma criança quieta, esforçada e com boas notas também pode estar enfrentando dificuldades importantes de atenção e organização.

Por isso, mais do que observar apenas o comportamento exterior, é necessário compreender o esforço que a criança está fazendo para acompanhar as demandas do cotidiano. Quando existe uma diferença significativa entre o potencial percebido e o esforço necessário para realizar tarefas simples, vale a pena investigar.

Reconhecer o TDAH não significa colocar um rótulo na criança. Significa compreender melhor seu funcionamento e oferecer ferramentas para que ela possa aprender, se relacionar e crescer com mais confiança. Muitas meninas passam anos acreditando que precisam simplesmente “se esforçar mais”. Quando recebem compreensão e suporte adequado, descobrem que não lhes faltava capacidade — faltavam estratégias e apoio compatíveis com a forma como seu cérebro funciona.

Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?

A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes, a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.

Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!

Dra. Cláudia Pechini

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