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TEA e transtornos alimentares: desafios na seletividade alimentar

TEA e seletividade alimentar

A alimentação é uma parte essencial do desenvolvimento infantil — ela envolve não apenas o aspecto nutricional, mas também fatores sensoriais, emocionais e sociais. Para muitas famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), no entanto, as refeições podem se transformar em um momento de grande desafio.

A seletividade alimentar é uma das dificuldades mais frequentes entre pessoas com TEA. Nesses casos, a criança pode aceitar apenas um número muito limitado de alimentos, recusar determinados sabores, cores ou texturas, e apresentar forte resistência a experimentar novos alimentos. Esse comportamento vai além de uma “fase de seletividade comum” na infância — ele está relacionado a questões neurológicas, sensoriais e comportamentais características do espectro autista.

Por que a seletividade alimentar é tão comum no TEA?

A seletividade alimentar em crianças com TEA é multifatorial, ou seja, decorre da combinação de diferentes fatores que interferem na forma como a criança percebe e reage à comida. Entre os principais estão:

1. Hipersensibilidade sensorial

Muitas crianças com TEA apresentam alterações na forma como percebem estímulos sensoriais — sons, luzes, cheiros, texturas e sabores. Essa hipersensibilidade pode fazer com que determinados alimentos sejam extremamente desconfortáveis, causando náusea, repulsa ou até crises de choro.

Por exemplo, a textura de um purê pode ser percebida como “grudenta demais”, o cheiro de um alimento pode parecer insuportavelmente forte ou o som de mastigar pode causar incômodo. Assim, a recusa alimentar pode ser uma forma de proteger-se de estímulos que causam desconforto sensorial.

2. Rigidez comportamental e necessidade de previsibilidade

A rigidez cognitiva — característica comum no TEA — faz com que a criança prefira rotinas previsíveis, incluindo na alimentação. Muitos se apegam a alimentos específicos, sempre da mesma marca, cor ou formato. Uma simples mudança na embalagem ou no modo de preparo pode gerar recusa imediata, pois o novo é percebido como uma ameaça à previsibilidade.

3. Associação negativa com experiências anteriores

Crianças que tiveram episódios de engasgo, refluxo ou desconforto intestinal podem associar a alimentação a experiências ruins. Essa memória negativa reforça a evitação de certos alimentos ou texturas.

4. Questões gastrointestinais

Problemas gastrointestinais, como constipação, refluxo e intolerâncias alimentares, são mais comuns em pessoas com TEA e podem contribuir para a recusa alimentar, já que comer pode causar desconforto físico.

5. Dificuldades motoras orais

Algumas crianças no espectro têm alterações na coordenação motora oral, dificultando mastigar ou engolir certos alimentos. Isso pode limitar a variedade da dieta, levando a preferências por alimentos mais macios ou líquidos.

Como identificar um quadro de seletividade alimentar preocupante

Nem toda criança seletiva tem um transtorno alimentar. No entanto, pais e cuidadores devem observar alguns sinais de alerta:

  • Repertório alimentar muito restrito (menos de 10 tipos de alimentos aceitos).
  • Recusa persistente de alimentos com base na textura, cor ou temperatura.
  • Crises intensas diante da apresentação de novos alimentos.
  • Dificuldade em participar de refeições familiares ou escolares.
  • Alterações no crescimento, peso ou carências nutricionais (como anemia ou déficit de vitaminas).

Quando esses sinais estão presentes, é importante buscar avaliação profissional para investigar as causas e iniciar uma intervenção adequada.

O papel do neuropediatra e da equipe multidisciplinar

O manejo da seletividade alimentar em crianças com TEA deve ser individualizado e multidisciplinar. O neuropediatra tem um papel central, avaliando se há fatores neurológicos, sensoriais ou gastrointestinais associados, e encaminhando para uma equipe especializada, que pode incluir:

  • Nutricionista: para avaliar o estado nutricional e propor estratégias alimentares seguras e equilibradas.
  • Fonoaudiólogo: para investigar dificuldades motoras orais e de deglutição.
  • Terapeuta ocupacional com integração sensorial: para trabalhar a aceitação gradual de diferentes texturas e estímulos sensoriais.
  • Psicólogo analista do comportamento: para ajudar no manejo de comportamentos de recusa, ansiedade e resistência durante as refeições.

A abordagem deve ser respeitosa, gradual e livre de coerção. Forçar a criança a comer pode gerar ainda mais rejeição e estresse, reforçando o comportamento de recusa.

Estratégias práticas para lidar com a seletividade alimentar

1. Ambiente tranquilo e previsível

O momento das refeições deve ser calmo, com poucos estímulos visuais e sonoros. Evite distrações excessivas, mas também não transforme o ambiente em um espaço de tensão.

2. Introdução gradual de novos alimentos

Apresente novos alimentos de forma progressiva: primeiro no prato, depois próximo à criança, até que ela se sinta confortável para tocar, cheirar e, eventualmente, provar.

3. Respeito ao ritmo da criança

É importante compreender que cada avanço, mesmo pequeno, é significativo. O objetivo inicial pode ser aceitar o alimento no prato, sem a necessidade de comer.

4. Variedade dentro do familiar

Se a criança só aceita um alimento específico (como macarrão), varie aos poucos o formato, a cor ou o molho, mantendo a base familiar. Essa estratégia amplia a aceitação sem romper a previsibilidade.

5. Evite recompensas alimentares

Oferecer sobremesas ou prêmios para “convencer” a criança a comer cria uma relação de ansiedade com a alimentação. O ideal é manter a refeição neutra e positiva.

6. Envolva a criança no preparo

Participar do preparo dos alimentos — escolher frutas, lavar legumes ou ajudar a montar o prato — aumenta o interesse e o vínculo positivo com a comida.

7. Trabalhe a experiência sensorial fora das refeições

Brincadeiras com alimentos (sem a obrigação de comer) ajudam a reduzir a aversão. Manipular texturas, cheirar e brincar com cores e formas torna o alimento menos ameaçador.

Quando a seletividade alimentar evolui para um transtorno alimentar

Em alguns casos, a seletividade pode se tornar tão intensa que compromete gravemente o estado nutricional e o crescimento da criança. Nesses casos, pode ser diagnosticado um Transtorno Alimentar Evitativo Restritivo (ARFID), uma condição reconhecida que requer intervenção especializada.

O ARFID não está relacionado à preocupação com peso ou imagem corporal, mas à aversão sensorial e ao medo de engasgar ou vomitar. O acompanhamento médico e terapêutico é essencial para restaurar a nutrição adequada e trabalhar o comportamento alimentar.

Em conclusão

A seletividade alimentar em crianças com TEA é um desafio complexo, que exige empatia, paciência e intervenção profissional adequada. Ela não deve ser vista como “birra” ou “frescura”, mas como um sintoma que reflete dificuldades sensoriais, motoras e emocionais específicas.

Com o suporte de uma equipe multidisciplinar, estratégias individualizadas e um ambiente acolhedor, é possível ampliar o repertório alimentar de forma gradual e positiva, garantindo nutrição adequada e qualidade de vida.

Mais do que fazer a criança “comer de tudo”, o objetivo é tornar o momento da alimentação prazeroso e seguro, respeitando o ritmo e as particularidades de cada criança no espectro autista.

Com quem você pode contar para saber mais sobre este assunto?

A Dra. Cláudia Pechini é Neurologista Infantil e possui Título de Especialista em Neurologia Infantil pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). São anos de experiência nos cuidados com crianças e adolescentes a fim de garantir o pleno desenvolvimento de todas as suas habilidades.

Agende uma consulta para você ou seu pequeno e esclareça todas as suas dúvidas sobre o assunto!

Dra. Cláudia Pechini

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